Brasileiros contam como é trabalhar como personal trainer em Portugal

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Se tem um lugar que o sotaque brasileiro parece predominar nas ruas de Portugal, esse lugar é Cascais. Dos 214 mil habitantes da vila (dados de 2024), que fica a 30 quilômetros de Lisboa, cerca de 15 mil são brasileiros. E tem uma profissão em que eles também se destacam na região: a de personal trainer. Com várias academias low cost, e outras consideradas de alto padrão, Cascais virou um celeiro de PTs – ou coaches – que cruzaram o Atlântico.
Entre eles, está o carioca Marcus Souza, 53 anos, que, no mês que vem, completa nove anos em Portugal. Ele conta que, quando chegou, não foi fácil arrumar emprego na sua área. Enquanto aguardava a validação do seu diploma da faculdade de educação física, trabalhou como motorista de aplicativo e vendedor de lojas de roupas. “Dei entrada na validação do diploma em junho e só recebi o documento em novembro. Nesse meio tempo, tive que me virar”, diz ele, que também aproveitou a espera da documentação para fazer uma pós-graduação em movimento funcional e outra em biomecânica, na Universidade de Lisboa.
Hoje, depois de passar por algumas academias, que em Portugal são chamadas de ginásios, Marcus trabalha como autônomo na região de Cascais. Além de ir à casa dos clientes, ele dá treinos online. “No início, foi muita ralação. Agora, tenho 14 alunos presenciais e mais de cem online”, calcula. Ele aponta que o brasileiro é mais aberto, principalmente o carioca, e que isso faz diferença na hora de contratar um personal. “Eu sei lidar com pessoas. Estudei muito para isso”, afirma. “Alguns alunos já viraram amigos, de eu frequentar a casa para almoçar”.
A carioca Camila Villanova: treinos na casa dos alunos e aulas online
Arquivo Pessoal
Outra carioca, a professora Camila Villanova, 43, também dá aulas em casa, na vizinhança de Cascais. Há oito anos em Portugal, ela, assim como Marcus, demorou a obter a validação do seu diploma. Foi um ano e meio à espera do documento. “Há uma fiscalização severa”, alerta. Entretanto, mesmo com os papéis em mãos, Camila teve de enfrentar o lockdown provocado pela pandemia do novo coronavírus, em 2020.
Foi quando ela, a exemplo de vários colegas de profissão, passou a investir também nas aulas online. “Nem pensava muito nisso, mas quando vim para cá, logo depois veio a pandemia, que deixou todo mundo trancado dentro de casa”, relembra. “À época, tinha apenas uma aluna. Mas as aulas online foram dando certo e a vida me levou para esse caminho”.
Não é desfile de moda
Com a experiência que ganhou como personal em terras estrangeiras, Camila conta que ajuda professores de educação física brasileiros (veja quadro abaixo) a se recolocarem no mercado português. “Tenho um e-book com o passo a passo do que a pessoa precisa fazer para conseguir, além de revalidar o diploma, se inserir no mercado de trabalho. Dou dicas de marketing, tudo”, conta.
Em relação aos alunos, ela faz uma comparação entre os de Portugal e os do Brasil. “Os brasileiros querem emagrecer e ganhar massa muscular. Já os portugueses não valorizam tanto isso de ganhar massa muscular”, avalia ela, que, com 12 alunos, tem a agenda completa. Outra diferença, aponta, é que o português tem um jeito mais low profile de se vestir para ir malhar.
“Isso é muito diferente em relação ao Brasil. Em Ipanema (na Zona Sul do Rio de Janeiro), onde eu trabalhava, era um desfile de moda”, brinca. “Acho que em Portugal não é assim. Cada um vai do jeito que quer e ninguém tem nada a ver com a vida do outro”.
Por sua vez, a personal paulista Karen Guimarães, 50 anos, que chegou a Portugal em 2022, reconhece que algumas palavras do vocabulário português soam de maneira estranha aos ouvidos brasileiros na hora de praticar exercícios. “Eu falo paras as minhas alunas ‘empinarem o bumbum’. Mas as portuguesas viram-se para mim e perguntam logo: ‘professora, então é para ‘espetar o rabo?’”, diverte-se ela, que atua em uma academia de Carcavelos.
Curso técnico
Brincadeiras à parte, ela destaca que o grande hiato em ser personal no Brasil e em Portugal é que, em território luso, não é necessário ter uma graduação. “Não é preciso ter uma licenciatura, como no Brasil. A pessoa pode apenas fazer um curso técnico (de 9 meses a um ano) e obter o Título Profissional de Técnico de Exercício Físico (TPTEF). Então, às vezes, muitos jovens, ainda sem experiência e conhecimento, entram para a área”, observa ela, que complementa.”Não que eles não possam ser bons profissionais. Muitos vão atrás de especializações, por exemplo”.
O português Miguel Cruz, 27 anos, trabalha há seis como personal trainer, também em Carcavelos. Ele afirma que os brasileiros são muitos presentes na área fitness em Portugal. E aprova a concorrência. “É sempre algo positivo. Desde que as pessoas estejam formadas”, salienta. “O principal ponto que, às vezes, acontece é chegar profissionais do Brasil, realmente prontos e com muita experiência, mas sem ter os documentos e as questões legais resolvidas”.
O personal trainer português Miguel Cruz
Arquivo Pessoal
Sobre alguma particularidade entre os alunos dos dois países, Miguel analisa que os brasileiros estão mais acostumados a ter um personal trainer. “Antes, a profissão não era tão valorizada em Portugal, enquanto, se calhar, alguém que vinha do Brasil, já vinha com a cultura de ter um PT”, afirma.
Menos elitizado
E ele acrescenta. “O principal feedback que tiro dos meus alunos brasileiros é que, se eu começo a ter uma melhor condição em nível de sucesso profissional, é normal investir mais na minha saúde. E isso simboliza treinar melhor e ter um personal. Hoje em dia já tem recomendação médica para a pessoa fazer treino de força. Antes, se um idoso, por exemplo, fosse ao médico, ele dizia que só podia fazer pilates, natação e caminhada”.
De Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, Wendell Fontana, 51 anos, marido de Karen, avalia que ter um personal trainer em Portugal é mais viável financeiramente do que no Brasil. “Em São Paulo, onde eu trabalhava, praticamente quem tinha personal era a classe A. Só depois, quando surgiram as academias low cost, que as classes B e C tiveram um pouco mais de acesso”, garante. “Em Portugal, acho que é menos elitizado. No país, o poder de compra é maior. Às vezes um trabalhador comum, que não tem uma vida muito pomposa, consegue pagar um personal”.
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