Gonçalo Barbosa: «Portugal tem de ter paciência diante da RDC»

O Campeonato do Mundo de futebol masculino arrancou a 11 de Junho e 10 dos 12 grupos já tiveram o seu jogo de estreia.
Até agora duas selecções lusófonas entraram em acção: o Brasil e Cabo Verde.
Os brasileiros acabaram por empatar a uma bola diante de Marrocos. O único tento da selecção brasileira foi apontado por Vinícius Júnior, enquanto o da marroquina foi da autoria de Ismael Saibari. No grupo C, o Brasil e Marrocos têm um ponto cada um, enquanto a Escócia lidera com três pontos após o triunfo dos escoceses por 1-0 frente ao Haiti.
Os cabo-verdianos empataram sem golos diante da Espanha num jogo a contar para o Grupo H. No outro encontro do agrupamento, o Uruguai e a Arábia Saudita empataram a uma bola. Abdulelah Al-Amri abriu o marcador para os sauditas antes de Maxi Araújo, defesa do Sporting CP, empatar para os uruguaios nos minutos finais.
Em relação a Portugal, a selecção das Quinas entra apenas em acção nesta quarta-feira, 17 de Junho, diante da República Democrática do Congo num jogo a contar para o Grupo K.
De notar que o outro jogo do Grupo K vai opor o Uzbequistão à Colômbia na quinta-feira 18 de Junho.
A Selecção Portuguesa chega a este primeiro encontro com a confiança ao máximo após ter triunfado nos dois jogos de preparação, por 2-1 frente à Nigéria e igual resultado diante do Chile.
Em entrevista à RFI, Gonçalo Barbosa, analista de futebol português de 32 anos, fez uma antevisão do primeiro encontro da prova para Portugal, e também abordou o que se pode esperar da África do Sul, ele que integra a equipa técnica do Mamelodi Sundowns, equipa sul-africana que venceu a Liga dos Campeões da CAF.
A RFI também aproveitou para abordar a experiência de Gonçalo Barbosa na África do Sul, ele que integra a equipa técnica de Miguel Cardoso no Mamelodi Sundowns, clube que venceu a Liga dos Campeões Africanos.
Ao microfone da RFI, Gonçalo Barbosa, que participou na sua primeira experiência fora de Portugal, fez um balanço da temporada da equipa conhecida com a alcunha “The Brazilians”, os brasileiros em tradução literal.
RFI: Quais são as expectativas para Portugal que arranca o Mundial diante da RDC?
Gonçalo Barbosa: Eu acho que a Selecção Portuguesa, logo no primeiro jogo, vai encontrar um jogo muito mais físico, muito mais no duelo, muito mais intenso. Acho que Portugal tem que guardar mais a bola, ter mais paciência, encontrar os espaços certos e não entrar no tipo de jogo que essas equipas querem e se sentem confortáveis, porque se entram, será um bocadinho complicado para Portugal. Estando já há um ano a treinar em África e conhecendo esses contextos, acho que Portugal tem que ser fiel à sua identidade. Tem que jogar calmo, tem que circular a bola, tem que manter a bola e tem que ter paciência no jogo, porque mais cedo ou mais tarde a outra equipa vai abrir espaços, não vai estar tão compacta. Depois Portugal tem jogadores com muita qualidade, que decidem muito melhor e que ganham, certamente. Agora, quanto às outras selecções (ndr: Uzbequistão e Colômbia), estou curioso para ver. Acho que Portugal tem sempre aquela esperança, mesmo que o primeiro jogo não corra assim tão bem, eles vão acreditar até ao fim. Acho que vão fazer uma boa campanha este ano, pelo menos estou a torcer por isso e acho que vai correr bem.
Os dois primeiros jogos são os mais importantes, frente à República Democrática do Congo e ao Uzbequistão?
Eu acho que todos os jogos são importantes, e depois as contas fazem-se no fim. É lógico que se ganham os dois primeiros jogos ficam muito mais confortáveis no terceiro e podem olhar para a tabela classificativa, podem até rodar um bocadinho a equipa e gerir para os próximos jogos. Mas todos os jogos são importantes. Muitas vezes não se dá tanta importância, mas tem importância a temperatura, a humidade, esse tipo de coisas. Jogas com a RD Congo, ou jogas com a Colômbia, são totalmente diferentes os ambientes. E se calhar essas selecções sentem-se mais confortáveis nesse tipo de ambiente. Acho que o Portugal pode ter alguma dificuldade aí, mas sinceramente acho que Portugal vai fazer uma fase de grupos tranquila. Vai gerir bem os jogos. Tem jogadores que gostam de jogar nesse patamar. Eles estão habituados, mais do que habituados a essas competições. Eu não me preocupava tanto com esses dois jogos. Sinceramente, acho que eles vão passar e vão passar em primeiro. Vai ser uma fase de grupos mais tranquila.
Muita gente vê este Mundial como um modelo de 2022, em que a Argentina estava atrás de Lionel Messi para conseguir esse título mundial. É possível pensar que vai ser igual para Portugal com Cristiano Ronaldo?
Acho que Ronaldo merecia. Sempre vi na minha infância, sempre vi na minha adolescência o Ronaldo a jogar. Aquilo que ele já fez e aquilo que ele fez pelo povo português. Um dos jogos (ndr: que me marcou) foi contra a Suécia, em que estávamos fora do Campeonato do Mundo do Brasil e ele meteu-nos nesse Campeonato do Brasil. Não estou a dizer que ele é o mais importante, mas ele já fez muito pela nossa selecção. No último Campeonato do Mundo em que participa, ele merecia isso. Agora, se vai ser isso ou não, não tenho a certeza, como é lógico. Mas acho que todo o plantel, toda a selecção, vai querer dar isso ao Ronaldo. Vai ser uma motivação extra e vai ter peso. Acho que o mundo ficava todo satisfeito se Ronaldo ganhasse. Seria a cereja no topo do bolo.
Está na África do Sul, o que é que se pode esperar desta selecção sul-africana? Pode ser uma surpresa?
Pode ser uma das surpresas. Tem jogadores com qualidade. Tiveram este ano, falando dos meus jogadores (ndr: que actuam no Mamelodi Sundowns), jogos da Champions bastante intensos. Estão habituados a esses patamares. Tens jogadores com muita, muita experiência. Estão habituados a esse tipo de jogos, estão habituados a esse tipo de ambientes e estão serenos. Ou seja, não é uma primeira vez. Acho que podem levar esta selecção a outro patamar. E depois têm um povo por trás a apoiá-los. É uma loucura. Pode ser uma motivação extra para dar uma alegria ao povo. Acho que é das únicas selecções, tanto a África do Sul como Marrocos, que tem tudo para ser também uma das surpresas deste Campeonato do Mundo.
Trocaria a Liga dos Campeões que conquistou com o Mamelodi Sundowns por um título mundial para Portugal?
O título da Liga dos Campeões foi um título que me deu muito trabalho. É lógico que eu gostava de ver Portugal ser Campeão do Mundo, mas não posso abdicar de uma coisa que me deu muito trabalho, muito esforço, muitas horas não dormidas. É impossível estar a abdicar disso. Mas sim, é lógico que eu gostava de ver Portugal ser Campeão do Mundo.
Gonçalo Barbosa, analista do Mamelodi Sundowns. © Cortesia Gonçalo Barbosa




