Após ser cassado e preso, ex-deputado Eduardo Cunha tenta voltar à Câmara

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“Esqueçam o que se foi; não vivam no passado. Vejam, estou fazendo uma coisa nova!” Foi assim, citando um versículo do capítulo 43 do Livro de Isaías, um dos mais importantes profetas do Velho Testamento, que o ex-deputado federal Eduardo Cunha desejou um “feliz 2026” aos seus seguidores na virada do ano. A mensagem foi escolhida a dedo para retratar a nova fase do ex-poderoso da Câmara, que caiu em desgraça na Lava-Jato, quando foi cassado pelos deputados que um dia liderou, e terminou preso por quatro anos, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. Agora, escorado na pregação religiosa, nas pautas conservadoras (especialmente no discurso contra o aborto) e no antipetismo, ele inicia uma difícil caminhada para tentar voltar aos dias de glória.
A peregrinação começa longe de casa. Com quinze anos de carreira política no Rio, Cunha foi para Minas, onde adquiriu ao menos cinco emissoras de rádio, principalmente evangélicas, e investe em negócios como o patrocínio do Uberaba Sport Club, time da segunda divisão do Campeonato Mineiro. “Mudei de residência (mora em Belo Horizonte), vida profissional, era natural que mudasse minha vida política”, diz. Ele tem se reunido com lideranças políticas e religiosas e feito entradas frequentes em programas de suas rádios, em estratégia semelhante à que o elegeu anos atrás. A mudança, consolidada no fim de 2025 com a transferência de domicílio eleitoral, embute um cálculo político: ele não quer disputar votos com a filha, Dani Cunha (União Brasil-RJ), que buscará a reeleição à Câmara.
Mesmo sem mandato há quase dez anos, Eduardo Cunha não se afastou do poder. Em novembro, “direcionou” uma emenda de 1,05 milhão de reais para João Pinheiro, cidade de 47 000 habitantes no noroeste do estado. A verba foi carimbada oficialmente pelo líder do Republicanos na Câmara, Gilberto Abramo, mas foi a Cunha que o prefeito Gláucon Cardoso (Novo) agradeceu em vídeo no Instagram. Em Brasília, com a influência da filha, uma polêmica emenda à Constituição apresentada por ele em 2012 para considerar que a vida se inicia na concepção (o que possivelmente proibiria completamente o aborto) foi ressuscitada e aprovada na Comissão de Constituição e Justiça no final de 2024 — agora aguarda votação em plenário. Dani também conseguiu aprovar um projeto para limitar inelegibilidades a até oito anos — a iniciativa poderia beneficiar o pai, não fosse o presidente Lula ter vetado o benefício para condenações já existentes.
A manobra agora é indiferente, na avaliação de Cunha, porque a inelegibilidade se encerra no início de 2027, o que lhe permite disputar a eleição. O prazo foi contado a partir do fim de seu último mandato, 2019, mesmo que ele tenha sido cassado por quebra de decoro em setembro de 2016. Sobre esse episódio, ele diz que não guarda rancor dos deputados, pois “foi um processo absolutamente político”, que atribui a uma desavença com o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia. “Ele não me deu os mesmos direitos que o Glauber Braga teve agora, por exemplo”, afirma, comparando o seu caso com o do deputado do PSOL-RJ, suspenso por seis meses por agressão.
ASCENSÃO E QUEDA - O político em dois momentos de sua trajetória: no impeachment de Dilma e preso na Lava-Jato (Pedro Ladeira/Folhapress; Heuler Andrey/AFP)
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No discurso de campanha, Cunha se vende como um homem necessário ao Congresso no atual momento. Entre suas qualidades, enumera a “capacidade de articulação” e o “papel central na organização de votações complexas”. Não é isso, de fato, o que se vê hoje na Câmara, sob a gestão tumultuada de Hugo Motta (Republicanos-PB), considerado um pupilo de Cunha. “Não sou apóstolo para ter discípulos”, nega o ex-deputado, ressaltando que o aliado chegou de forma diferente à cadeira que ele também ocupou. “Ele age bem diferente de mim pelo momento em que foi eleito. A minha eleição foi em confronto; a dele, em consenso. Não sei dizer quais foram, mas ele certamente está cumprindo os compromissos que assumiu”, diz. Confronto foi a marca da gestão de Cunha durante o mandato de Dilma Rousseff, quando rompeu com o governo e desencadeou o processo que levou à queda da petista.
Ele também acumulou confusões nos tribunais. Em 2016, foi do céu ao inferno em um mês: após conduzir o impeachment, em abril, foi afastado em maio pelo Supremo por usar o cargo para atrapalhar a Lava-Jato. Em outubro, um mês após ser cassado, foi preso por decisão do juiz Sergio Moro, hoje senador. Foi acusado de receber 5 milhões de reais em propinas na compra de um campo de petróleo pela Petrobras e de esconder o dinheiro no exterior — imputações pelas quais seria condenado a quinze anos de prisão no ano seguinte. Ficou preso até 2020, quando foi posto em regime domiciliar na pandemia e teve a prisão revogada um ano depois. Em 2023, o STF anulou a condenação, por considerar que a ação havia tramitado no foro errado.
Livre dos enroscos legais, Cunha precisa agora passar pelo crivo do eleitor. Em 2022, já havia tentado voltar à Câmara por São Paulo. Em uma candidatura marcada por idas e vindas judiciais, obteve 5 044 votos pelo PTB e ficou apenas na 916ª colocação no estado. Antes das urnas, precisará de um partido novo: ele não planeja permanecer no Republicanos e processa a principal liderança do Republicanos em Minas, o senador Cleitinho Azevedo, que em um ato de rua perguntou se o mineiro teria coragem de votar em Cunha. O ex-presidente da Câmara acredita que sim. O tempo dirá se o eleitor, como ele pediu na mensagem de ano-novo, já esqueceu o passado.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978




